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terça-feira, fevereiro 8

Pobre Luis

Pobre Luis, morreu muito cedo... cedo demais pra ter a certeza que era um idiota completo. A tristeza de tudo é que, mesmo morto, o que resta dele é uma piada. Talvez seja pelo fato de ter morrido atropelado por um carrinho de sorvete.
"Que bom... que bom..." foram as últimas palavras emitidas por voz humana que ele ouviu, grasnadas por um pato elétrico disfarçado de corneta. Esta idéia me dá certo conforto à alma. Luis morreu acreditando que tudo estava bom... já estou decidido, vou morrer de orgasmo.

Texto e foto: Renato Sartori

Pequena Viagem Sentimental

by Sartori


Primeiro as placas, depois misturas de pessoas e luzes coloridas, tudo misturado e criando rastros, como um arado através do meu olho encostado ao vidro da lotação, abrindo sulcos por onde eu tentava achar a finalidade das coisas.
Engano meu, encostado com a testa numa janela é impossível descobrir sequer em que bairro se está. Talvez, a finalidade de não se lavarem tão seguidamente as janelas dos ônibus seja a distração de gente como eu, admiravelmente sem argumentos pra não fazer tal coisa.
Já não me encontro dentro de nada. Parado na rua, olho a lotação indo embora, de onde pulei num espasmo de descoberta, da descoberta de estar no local errado. Não sei ao certo o que seria um caminho errado. Acho que o início e o fim são só pontos de vista. A questão é que, para mim, parado numa rua sem calçamento à beira de lugar nenhum sob um morro, qualquer divagação filosófica seria apenas perda de tempo. Agora é olhar para os lados, tomar um rumo e ir
Me atrevo a pensar que devo ser o último ser humano a passar aqui, pelo menos neste segundo, nesse intervalo de tempo em que o ônibus passa levantando poeira, sou o primeiro. Claro que antes de mim, com certeza houveram outros. Que importa...
Todo castigo é pouco para o homem sem fé. Eu, ateu e sem dinheiro pra passagem de volta, sou uma vítima do sistema de trânsito e dos cobradores de passagem. Minha deficiência é de esperança, nada que renda uma volta de graça para o centro da cidade.
Centro... neste momento, me vejo como o centro do universo, o centro do universo conhecido de mim mesmo, com sol e pedras compondo o caminho, universo agrário particular. A estrada é sempre a mesma, mas nada nela se mantém sempre o mesmo. As camadas de poeira formam a única memória que os caminhos têm. A minha memória se joga pra longe. Vai aterrissar num copo de coca-cola em algum lugar com cadeiras e sombra.
Certa vez, eu li que pilotos da segunda guerra, quando caíam no deserto, caminhavam lado a lado e não em fila indiana, a esquisitice do fato me acompanhou até que descobri que todos, num horizonte sem fim, andam em círculos. Portanto, existe a necessidade de colocar um canhoto e um destro no início e no fim de toda fila... indo pela tangente, se atinge o centro.
Chuto o que sobrou de um tênis velho, que vai parar ao lado de uma pedra, a qual não demonstrou piedade alguma. De certa forma, deus é uma pedra. Deus sempre foi de pedra, depois de gesso, barro, ouro e agora alumínio e plástico... deus agora é uma garrafa PET, seria meu milagre pessoal.
Descendo a ladeira da Oscar Pereira, me lembro de procurar cemitérios no horizonte, mas infelizmente, mesmo deles eu estou distante, sou um semimorto já, o maldito climatologista que disse que isso aqui é subtropical deveria estar amarrado nesse sol hoje.

Renato Sartori