terça-feira, fevereiro 8

Pequena Viagem Sentimental

by Sartori


Primeiro as placas, depois misturas de pessoas e luzes coloridas, tudo misturado e criando rastros, como um arado através do meu olho encostado ao vidro da lotação, abrindo sulcos por onde eu tentava achar a finalidade das coisas.
Engano meu, encostado com a testa numa janela é impossível descobrir sequer em que bairro se está. Talvez, a finalidade de não se lavarem tão seguidamente as janelas dos ônibus seja a distração de gente como eu, admiravelmente sem argumentos pra não fazer tal coisa.
Já não me encontro dentro de nada. Parado na rua, olho a lotação indo embora, de onde pulei num espasmo de descoberta, da descoberta de estar no local errado. Não sei ao certo o que seria um caminho errado. Acho que o início e o fim são só pontos de vista. A questão é que, para mim, parado numa rua sem calçamento à beira de lugar nenhum sob um morro, qualquer divagação filosófica seria apenas perda de tempo. Agora é olhar para os lados, tomar um rumo e ir
Me atrevo a pensar que devo ser o último ser humano a passar aqui, pelo menos neste segundo, nesse intervalo de tempo em que o ônibus passa levantando poeira, sou o primeiro. Claro que antes de mim, com certeza houveram outros. Que importa...
Todo castigo é pouco para o homem sem fé. Eu, ateu e sem dinheiro pra passagem de volta, sou uma vítima do sistema de trânsito e dos cobradores de passagem. Minha deficiência é de esperança, nada que renda uma volta de graça para o centro da cidade.
Centro... neste momento, me vejo como o centro do universo, o centro do universo conhecido de mim mesmo, com sol e pedras compondo o caminho, universo agrário particular. A estrada é sempre a mesma, mas nada nela se mantém sempre o mesmo. As camadas de poeira formam a única memória que os caminhos têm. A minha memória se joga pra longe. Vai aterrissar num copo de coca-cola em algum lugar com cadeiras e sombra.
Certa vez, eu li que pilotos da segunda guerra, quando caíam no deserto, caminhavam lado a lado e não em fila indiana, a esquisitice do fato me acompanhou até que descobri que todos, num horizonte sem fim, andam em círculos. Portanto, existe a necessidade de colocar um canhoto e um destro no início e no fim de toda fila... indo pela tangente, se atinge o centro.
Chuto o que sobrou de um tênis velho, que vai parar ao lado de uma pedra, a qual não demonstrou piedade alguma. De certa forma, deus é uma pedra. Deus sempre foi de pedra, depois de gesso, barro, ouro e agora alumínio e plástico... deus agora é uma garrafa PET, seria meu milagre pessoal.
Descendo a ladeira da Oscar Pereira, me lembro de procurar cemitérios no horizonte, mas infelizmente, mesmo deles eu estou distante, sou um semimorto já, o maldito climatologista que disse que isso aqui é subtropical deveria estar amarrado nesse sol hoje.

Renato Sartori

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